09/01/2012

ANTROPOLOGIA CULTURAL - Por Ana Moura - Voltando das merecidas férias





A Orkutização da Europa



Adoro falar sobre globalização porque ela é inevitável e, querendo ou não, o mundo será nivelado por baixo pela economia da China e pela cultura pop de todos os países.

Voltei das férias, depois de dias desconectada até mesmo da TV, e descobri surpresa que Michel Teló tornou-se uma das celebridades mais elogiadas e execradas – simultaneamente - nesse verão.

O grande Alex Paim, que além de jornalista é comediante e redator de humor, publicou no Twitter uma idéia sensacional: “Michel Teló é a orkutização da Europa”. Recentemente, publiquei um artigo falando sobre o termo “Orkutização” e a dificuldade de localização e alcance do público alvo dentro das mídias sociais. Basicamente, o que se populariza perde o brilho, o encanto e a graça, por isso as massas migram para novas paragens, mas continuam representativas no mercado de consumo.

Michel Teló é um excelente músico. Quem conhece um pouco de sua história sabe que ele está há anos na estrada e que, além de cantor, é compositor, dançarino e instrumentista de sanfona e gaita. Ele é afinadíssimo e sabe muito bem a diferença entre música boa em música ruim. Mas esse moço faz parte da indústria do entretenimento, cuja finalidade ó obter o máximo de alcance de público consumidor. Emplacar um sucesso significa lucro, muito lucro. Se o produto oferecido exigir muito raciocínio e cultura, acaba restringindo o público alvo e impedindo o ganho em escala. Erudição custa caro e não tem apelo para os consumidores.

A música “Ai se eu te pego”, de Michel Teló, já superou Adele e Coldplay em países como Espanha, Bélgica, Itália, Holanda e Suíça. O hit já conquistou o primeiro lugar entre as músicas mais baixadas do iTunes. Também é a canção brasileira com maior número de visualizações do Youtube, com mais de 100 milhões de acessos. Com a versão em inglês, intitulada "Oh, if I catch you", o próximo alvo é a terra do Tio Sam.
  
E como fica a produção cultural, se um músico, com o talento do Michel Teló, lança um disco para ganhar dinheiro e o público que consome sua música só quer diversão barata e “pegar” na balada? A Revista Época publicou uma matéria de capa sobre o cantor, onde afirma que “ele traduz os valores da cultura brasileira”, ora, cultura é transmissão de conhecimento, valores, informações entre gerações, tradições, princípios e ideais, cadê tudo isso em suas estrofes de rima fácil? Estaria a cultura brasileira fadada ao deboche, como o da careta da foto lá de cima?

Se pararmos para analisar hits internacionais, que pipocam diariamente nas rádios, com batidas arrebatadoras e refrãos que grudam na mente, veremos que a produção brasileira está dentro do padrão estabelecido para consumo imediato e global, portanto, não é de causar espanto o sucesso que o Mr. Teló está fazendo lá fora.

Todo tipo de arte que sobreviveu ao longo de séculos de história têm uma coisa em comum: relevância. Tudo o que foi criado para consumo imediato morreu da forma que nasceu: sem muito esforço.

Podem torcer o nariz – com razão – mas nada vai impedir que fenômenos populares se espalhem pelo planeta na velocidade de um click e, cá entre nós, mérito de quem tem visão de mercado para fazer fama e fortuna com isso, e podem ter certeza de que estão.

Quanto aos amantes da arte, conformem-se com o pouco trigo que encontrarem em meio ao joio.





5 comentários:

  1. Ana Moura! Chegou chegando das férias com os dois pés no peito. Azar de quem não gostar de ouvir verdades. Parabéns pela visão. Obrigado pelo ótimo texto. Não conheço a trajetória desse cara, mas detesto isso. Pra mim ele só tem essa música e vai sumir tão rápido quanto apareceu!

    Seja bem vinda!

    bjbj

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  2. Seja muito bem vinda ao ano 2012 ,,,e vc chegou com todo o seu saber e atualização do tema globalização com muita felicidade na exposição do tema . E sobre a música considersmos que todo o sucesso tem uma razão de ser ...mas o que mais caracteriza um sucesso é a sau perpetuação nos anos seguintes . Vamos ficar ligados para comprovar o sucesso ,,,,,Aí se eu te pego ,,e se perpetuo !!!
    FELIZ 2012
    ANTONIO CARLOS TERRERI

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  3. Ao meu ver essa globalização se deu devido a ajuda dos futebolistas famosos, que ao meu ver ditam moda, sobretudo, para os que não tem condições de explorar suas próprias sensibilidades. Haja vista, que "Agora" o mundo se atentou para esse ritmo, talvez, emplaque grupos como É o Tcham, e milhares de músicas com o refrão viciante com seus acordes e letras de arrepiar. Estou comentando, porém, sou totalmente alheio, pois sou totalmente visual, não consigo "apenas" ouvir música, logo, estou sempre blindado do sucesso imediato como o Teló e outros sertanejos e axés e funk e rap eticéterra.... Mas, sempre respeitando o gosto de qualquer um, mas, o que se deveria entrar definitivamente em voga é o FONE DE OUVIDOS. é isso. Adorei o texto, como sempre! Abraços e sorrisos

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  4. o que dizer?? assno em baixo!! alexenium@hotmail.com

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  5. Conheço inúmeras músicas da Terra do Tio Sam, onde encontramos apenas meia dúzia de palavras e o resto é só aquele "beefed-up sound" Intermitente e repetitivo bate-estaca para alegrar a moçada baladeira.
    Público seleto e aculturado é a minoria e não desperta o menor interesse de certos artistas que desejam se locupletar no menor espaço de tempo possível e garantir o seu sustento por um grande período de tempo.
    Foi isso que surgiu na minha mente nesse momento, se eu estiver enganado/equivocado que me perdoem!

    Ah, se eu te pego, Ana! ha ha ha

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