30/01/2012

ANTROPOLOGIA CULTURAL - Por Ana Moura








O PIOR CASTIGO


Numa escala de zero a dez, sou sentimental nível dezenove. Hoje é o "Dia da Saudade" e refletir sobre ela, pareceu-me muito apropriado.

A palavra saudade é um substantivo abstrato que existe apenas em português e gaulês. Sua origem é do latim “solitate” (solidão). E a saudade nos faz sentir assim, sozinhos.

Outros idiomas não conseguem traduzir seu significado pungente: te extraño (castelhano), J’ai regret (francês), Ich vermisse dish (alemão), homesickness e to miss (inglês) expressam o sentido, não o sentimento.

Saudade está relacionada à tristeza, à melancolia, à falta de alguém, de algo ou de um lugar. Em suma, é um sentimento de privação. Trata-se de um desconforto, muitas vezes físico, pela impossibilidade de se reaver o que já se teve. Sempre digo “a pior saudade é a do que já não existe mais”.
É um sentimento fisiológico e visceral, a única maneira de eliminá-lo é reencontrando o objeto de desejo.  Se existe algo delicioso é poder matar a tal da saudade!

Muitos autores da língua portuguesa, “última flor do Lácio, inculta e bela”, utilizaram com primazia a palavra em verso e prosa, mas um deles, genial e preciso, definiu o sentimento de maneira antropomórfica, falando de um pedaço amputado. Só quem viveu certas dores, poderá entender. 

Nesse "Dia da Saudade", num momento em que três prédios ruíram no Rio de Janeiro, outrora Cidade Maravilhosa (ai, que saudade), em que a violência dizima a vida de jovens queridos, em que as relações humanas estão perdendo o afeto, deixo para vocês a obra prima de Chico Buarque, que fala tudo, absolutamente tudo, o que eu adoraria dizer sobre esse sentimento tão  bonito e humano. 


Pedaço de Mim


Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

2 comentários:

  1. Oi Ana!!! Ótimo seu texto. O poema é...

    Não tenho palavras!

    bjbj

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  2. Muito bem escolhido o poema do Chico para ilustrar o sentimento

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