02/02/2012

CONTO: Simplesmente, feliz

Um violão e um gato. Era tudo que ele tinha e andava à pé.  Na casa emprestada por um tio não muito sério, ele guardava quase nada. Fazia a cama no chão, onde dormia enroscado ao gato preto que era o verdadeiro dono do imóvel desde sempre. Sua mobília era as teias nos cantos dos cômodos e um colchão de molas tão antigo que já estava morto há muito tempo. Os vidros poeirentos quase não deixavam a luz entrar, mas quando o dia estava muito claro davam à casa um aspecto meio mágico.

Era garçom, num bar que era pra ser um restaurante, mas que de tão freqüentado por bêbados deixou de preparar comida e o cozinheiro está empregado como pianista. Ele alimentava o gato que quase que apenas comia e dormia e seguia pro bar carregando um maço de cigarros sempre meio amassado e o violão. Servia bebidas atrás de um balcão.
Servia gente de toda cor, de toda dor. Cachaças pras desgraças, era seu lema. Esperava a noite fluir, o bar se acalmar pela bebida, pelas horas, ansiava tocar. O violão esperava, encostado no canto escuro, como uma velha cansada.

Na madrugada, sem nada dizer ele ia até o canto onde fica um pequeno palco, e tocava. O violão era de repente uma viagem infinita e mágica a qualquer lugar, por onde ele escolhesse voar. O violão era o par de asas, o avião, o balão colorido perdido no espaço azul. E ele era rei, era corcel negro selvagem rasgando um campo na Holanda, era dançarino de nuvem, era astronauta na lua, era um deus de asas nos tornozelos e poeira nos cabelos.

Com o último bêbado trôpego, tocava a derradeira música, de olhos fechados, esquecido por um momento do lugar escuro deslocado do mundo, milhas distante do colchão quase úmido à sua espera na casa cheirando a ferrugem, desconectado da terra e dos laços de amizade com o gato preto.

No silêncio da noite, do bar de porta fechadas, puxava sempre da mesma maneira as mangas da camisa e lavava cuidadosamente os copos, devagar, sorrindo um esboço de alegria. E na madrugada quieta, caminhando sob a luz tranqüila da lua ele voltava pra casa de braço com o violão, chutando uma pedra, piscando estrelas e escrevendo sem querer sua história de felicidade simples.

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