16/02/2012

CRÔNICA: É o samba

Eu não entendo, mas toda vez que ouço a bateria de uma escola de perto, eu acendo, eu brilho, eu balanço e choro. É um negócio que toca por dentro, que faz o coração bater o bumbo, o pandeiro e a cuíca. Ah, a cuíca! A cuíca arrepia e cutuca a alma, faz sorrir o velho e a menina, faz a vida parecer infinita, bonita, bonita demais. E vem a molecada dos tamborins, a gente sente tudo junto batendo no peito, sente o ritmo e o balanço, a ginga da morena, da lourinha Bombril, do mulato faceiro. A gente explode por dentro  e espreme a vida num sorriso verdadeiro.
Eu nunca entendi, mas quando vejo as pessoas descendo a avenida, eu sinto a garganta se dobrando num nó, eu que não sei sambar nem rebolar, eu que não sei tocar um só instrumento nem cantar, eu que estou longe de ser foliã, sou incapaz de resistir ao apito do mestre batuqueiro,  ao samba da moça de corpo desenhado, ou aos largos sorrisos das baianas engordadas pelos vestidos imensos. Eu me entrego, deixo o samba me levar, me lavar por dentro.
Eu não sei o que é, mas aquece por dentro e anima, feito caninha de engenho do interior, fogueira de festa junina, amor de menina. Talvez seja o samba, as mãos descendo e subindo num vai e vem incansável surrando os instrumentos, talvez seja o suor no rosto feliz de cada integrante da escola, talvez seja o enredo, o samba, a cuíca, os pés na sandália de prata marcando para sempre a avenida. Pode ser que seja apenas meu coração que sintoniza os tambores, as caixas, os agogôs e se vê parte do samba, do som.
Eu nunca soube de onde vem tanta alegria, pois se a mesma gente que sofre e labuta, pena e trabalha de repente, da noite pro dia se veste de  alegria, de ridículo, de feliz e sai do jeito que for, trajando escandalosas fantasias, inusitadas, cômicas, sai e samba, e mexe os braços, a cabeça, rebola com a vida num ritmo alucinante, contagiante, único.
Eu não entendo, mas ouço a escola chegando, o samba batendo e por um breve instante tudo que é louco no mundo faz sentido, tudo que é feio e vil se faz bonito. É o Carnaval? É sim, é o Carnaval.
Quase já posso ouvir, é o samba chegando, a tradição, dias de abandonar a tristeza, o amargo, as angustias da vida e se deixar envolver por qualquer coisa, um sambinha no botequim, o beijo no meio da dança, um confete nos cabelos da moça, um abraço daquele velho amigo que só aparece no feriado mais esperado. Já sinto a terra tremer, é o samba que vem e varre as ruas de alegria, o samba da favela e da burguesia, é o samba que nivela o país. Você já ouve, você sente? É o samba!

1 comentários:

  1. Dani, que delícia de texto! Senti vontade de ir pro meio da avenida, pro meio da bateria...

    E que esses dias sejam para todos, de muita alegria e paz, e que seja com responsabilidade !

    Obrigado pelo esforço de ontem, que permitiu esse belo texto. Parabéns!!!

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